Design sem nome (28)

Palavras podem abrir portas que você nem sabia que estavam trancadas.

Palavras podem abrir portas que você nem sabia que estavam trancadas.

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Ana acreditava que devia se esforçar mais

Ana tinha 34 anos, era muito competente no trabalho, e também estudava, além de cuidar da casa nos poucos momentos livres que tinha. Mas, independentemente do quanto se esforçava e do quanto fazia, nunca sentia que tinha feito o suficiente.

Ana, por ser muito competente e dedicada, recebia muitos elogios, porém, não acreditava em nenhum deles, achava que as pessoas que a elogiavam estavam apenas sendo gentis. Ela pensava “não sei porque estão me elogiando, eu faço tão pouco, sei que deveria estar fazendo muito mais”. E dessa forma, Ana ficava cada vez mais atarefada e frustrada consigo mesma. Quanto mais fazia, menos achava que fazia o suficiente.

Até que, num domingo à tarde, sentada na varanda de sua casa, preocupada com as tarefas da semana e já se culpando por saber que não daria conta de fazer tudo que havia planejado. De repente, ela sentiu o coração acelerar, o peito apertar, a respiração ficar muito rápida e as mãos começarem a tremer. Aquelas sensações foram aumentando, e ela começou a achar que estava infartando, o que a fez ficar ainda mais ansiosa e com medo.

Naquele momento, Ana achou que iria morrer, porque foi essa a sensação que ela teve: de morte. Ela ficou completamente tomada pelo medo e pelo desespero. Mesmo assim, Ana percebeu que precisava tentar se acalmar para decidir o que fazer, porque estava sozinha em casa e não havia ninguém para ajudá-la.

Passados cerca de 20 min, desde que tinha começado a sentir todos aqueles sintomas, seu coração foi se acalmando, e começou a bater mais devagar. Ela ainda se sentia trêmula e ansiosa, mas seu medo havia diminuído um pouco. Naquele momento, decidiu ir até o pronto socorro mais próximo, no caminho até o hospital, não conseguia pensar em outra coisa que não fosse o que tinha acabado de acontecer. Ela estava com muito medo de sentir tudo aquilo de novo.

Chegando no pronto atendimento, foi atendida pela equipe de triagem do hospital, onde lhe disseram que sua pressão estava alta. Ela que nunca tinha tido pressão alta, ficou assustada e preocupada com a notícia. Em seguida, foi atendida por um médico que lhe falou que ela havia tido uma crise de ansiedade. Ela duvidou do diagnóstico médico e não podia acreditar que era “só ansiedade”, como o médico disse. Ela achava que estava com algum problema cardíaco e que precisava descobrir logo o que era, porque, do contrário, poderia morrer a qualquer momento. Ela falou de sua preocupação para o médico que lhe passou exames para tranquilizá-la e descartar problemas cardíacos, mesmo ele estando convencido de que era apenas uma crise de ansiedade.

Porém, mesmo com os resultados dos exames cardíacos apontando que não havia nada de errado com seu coração, Ana não conseguia pensar em outra coisa, começou a pesquisar sobre problemas cardíacos na internet e a ficar observando cada mudança em seu corpo. Tudo isso alimentou ainda mais a ansiedade de Ana, e as crises de ansiedade passaram a acontecer com frequência. Ana já não conseguia mais ficar em espaços fechados ou com muitas pessoas sem sentir muita angustia e desconforto, passou a evitar esses locais e a ter medo de dirigir e ficar presa no trânsito, algo que acontecia com frequência no retorno do trabalho.

Sua vida se tornou um inferno, começou a dormir muito mal e já acordava com medo de ir para o trabalho e ter que enfrentar engarrafamento na volta. Passava a maior parte do tempo vigiando seu corpo, sua respiração e seus batimentos cardíacos.

Até que numa determinada noite, teve um sonho muito revelador. No sonho ela era criança, e o que mais queria era que seus pais prestassem atenção nela. Porém, eles estavam muito ocupados. Seu pai sempre ocupado com o trabalho e outras coisas que eram de seu interesse, e sua mãe com os afazeres de casa e as novelas. E Ana, ficava de lado, passando quase desapercebida. Então, ela desenhava para tentar ser notada. Fazia muitos desenhos da família, mas quando ia mostrar para sua mãe, ela estava ocupada demais para prestar atenção, e quando mostrava ao seu pai, ele dizia que ela precisava continuar desenhando para que os desenhos ficassem melhores.

Em outra parte do sonho, Ana chegava em casa depois da escola, super animada para mostrar aos seus pais o resultada da prova que tinha feito, com parabéns da professora por ter acertado tudo. Quando mostrou para sua mãe ela lhe disse: “Não fez nada mais que sua obrigação”, já seu pai disse que “era assim que devia ser em todas as provas, não somente naquela, porque a vida é muito difícil para quem não se esforça em todos os momentos.”

Ana, então, acordou do sonho, sentindo um misto de tristeza e frustração. Ela começou a se lembrar de vários momentos na infância e adolescência em que conquistou muitas vitórias, mas não foi reconhecida pelos seus pais. Na escola era uma ótima aluna, uma das primeiras da classe. Na natação era destaque por ser uma das nadadoras mais rápidas, ganhando várias competições em que participou. No cursinho de inglês não era diferente, aprendia rápido o que era ensinado e até ajudava os colegas que tinham dificuldade. Durante o ensino médio seu objetivo era se preparar para entrar em uma boa faculdade, ficava horas estudando. Tirou uma ótima nota na prova do Enem que lhe garantiu uma vaga em engenharia numa universidade federal (curso que seu pai escolheu para ela, para que se tornasse engenheira assim como ele e outras pessoas da família).

Porém, nenhuma dessas louváveis conquistas foram reconhecidas, muito menos comemoradas. A justificativa era sempre a mesma: “não é mais do que sua obrigação e você precisa se esforçar sempre”. E era exatamente isso que Ana, agora com 34 anos, repetia para si mesma. Por isso, nunca comemorava suas vitórias, e nunca se sentia boa o suficiente, por mais que se esforçasse.

Perceber tudo isso fez Ana sentir uma tristeza muito profunda, que ela havia guardado dentro de si desde a infância. Ana chorou como nunca havia chorado antes e reconheceu pela primeira vez, a dor de carregar por tanto tempo um fardo tão pesado. Naquele momento, ela percebeu que precisava deixar para trás a necessidade de buscar a aprovação de seus pais, e passar a viver de forma mais leve e saudável.

Obs. Todas as histórias do Blog são autorais e fictícias.

Nathalia Moreira

Escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e pós-graduanda em Neuropsicologia. Auxilio pessoas a transformar suas dores em crescimento.

Nathalia Moreira

Escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e pós-graduanda em Neuropsicologia. Auxilio pessoas a transformar suas dores em crescimento.

Deixe seu comentário

Comentários dos leitores

dezembro 4, 2025

Nossa, que texto forte! Fiquei aqui pensando em quantas vezes a gente carrega coisas da infância sem nem perceber… A história da Ana mexeu comigo de um jeito que eu nem esperava.

Avatar for Viviane
Viviane

Resposta:

Obrigada por compartilhar como o texto te tocou Viviane! Realmente a infância deixa marcas em nós que nem imaginamos.

Copyright © 2025 Terapeuta Nathalia Moreira. Todos os direitos reservados.